Projeto pet: entender a operação antes de desenhar o espaço

Antes de projetar o espaço, é preciso entender como ele deve funcionar.
Existe uma pergunta que considero fundamental em qualquer projeto e que, muitas vezes, aparece tarde demais para projetistas inexperientes ou clientes com barreira de comunicação: “Como esse negócio realmente funcionará?” Antes de discutir planta, acabamento, instalações ou soluções construtivas, precisamos entender o que acontecerá naquele espaço todos os dias.
Quem entra? Quem sai?
Quem atende? Quem espera?
O que circula? O que precisa permanecer separado?
Onde estão os equipamentos? Quais atividades acontecem simultaneamente?
Onde estão os gargalos atuais? E, principalmente, como aquela operação pretende crescer?
Essa análise muda completamente a qualidade de um projeto.
Um espaço que cabe no orçamento e na operação
Um bom espaço não é apenas aquele que cabe! Já escrevi por aqui que um projeto pode caber no orçamento e ainda não caber no negócio.
Continuo acreditando muito nisso. Existem projetos tecnicamente corretos, esteticamente muito bem resolvidos e financeiramente compatíveis com o investimento disponível que, depois de prontos, começam a revelar dificuldades no uso diário.
Circulações longas demais. Ambientes posicionados longe de onde deveriam estar.
Equipes cruzando fluxos desnecessariamente. Equipamentos sem infraestrutura adequada.
Áreas que rapidamente se tornam pequenas e outras que permanecem subutilizadas. Nessas situações, o problema não está necessariamente na qualidade do desenho ou da execução.
Muitas vezes, faltou compreender a operação antes de transformar necessidades em espaço físico.
Escuta e investigação antes das soluções
O projeto precisa fazer perguntas antes de oferecer respostas. Essa etapa exige escuta.
O cliente conhece o negócio. A equipe conhece a rotina.
Arquitetos, engenheiros e demais especialistas possuem conhecimentos complementares para transformar essas informações em soluções tecnicamente consistentes. Quando esse diálogo acontece cedo, conseguimos antecipar dificuldades que seriam muito mais caras para resolver depois.
Por isso, considero importante entender projeto como um processo de investigação. Antes de decidir onde estará uma parede, precisamos saber o que acontece de cada lado dela.
Cada atividade exige um projeto pet específico
No mercado pet, isso se torna ainda mais evidente! Os projetos para o mercado pet são um bom exemplo.
Uma loja, um espaço de banho e tosa, uma clínica ou um hospital veterinário podem ocupar o mesmo imóvel ou fazer parte de um mesmo empreendimento. Mas não possuem a mesma operação.
Cada atividade apresenta exigências próprias de circulação, atendimento, higienização, armazenamento, instalações, conforto, segurança e suporte técnico. Projetar sem a vivência adequada nesse tipo de ambiente, sem questionar os diversos envolvidos na operação, projetar simplesmente transferindo conhecimento de um projeto anterior ao novo, são exemplos comuns de erros de projeto.
Em operações mais complexas, pequenas decisões de layout podem afetar diretamente produtividade, experiência do cliente, rotina das equipes e qualidade do atendimento aos animais. Por isso, chamar tudo simplesmente de “projeto pet” pode esconder diferenças importantes.
O espaço precisa nascer a partir da atividade que acontecerá dentro dele. Se forem diversas atividades, os espaços precisam ser bem pensados e projetados para funcionar como um todo.
E dentro de cada segmento existem variações de negócios. Podemos ter uma clínica ou um hospital veterinário só de gatos, só de aves, só de animais silvestres.
Podemos ter uma creche para cães, outra para gatos. Podemos ter um banho e tosa para atendimento de filhotes, animais obesos ou com dificuldade de locomoção.
Podemos ter um laboratório veterinário só de imagens, outro só de coletas, outro misto. Podemos ter um comércio misto com banho & tosa, loja e consultório.
Enfim, existem diversos tipos de negócios e, portanto, diversos projetos possíveis.
Conhecimento técnico e vivência da operação
Projetar também é compreender o negócio. Tenho cada vez mais convicção de que engenharia e arquitetura entregam seus melhores resultados quando conseguem olhar além da “prancheta”, modernamente do desenho em CAD.
Não estamos apenas organizando metros quadrados. Estamos criando condições para que pessoas trabalhem melhor, empresas operem de maneira mais eficiente e estruturas possam acompanhar a evolução do negócio.
Se for de saúde animal, isso vai bastante além, temos que projetar espaços que promovam a saúde com higiene, conforto, bem-estar e segurança de ambos, pessoas e animais. Minha formação em Medicina Veterinária e a vivência profissional nessa área contribuem diretamente para minha atuação como engenheiro civil, com especialização em arquitetura de saúde e cursos complementares de engenharia clínica.
A experiência prática também é fundamental para ampliar esse conhecimento. Eu mesmo já passei noite de plantão em hospital de aves para entender toda a rotina.
Deve-se questionar bastante os envolvidos na operação, passar um dia em cada setor, ir a lugares de referência, etc. A obra começa quando o projeto sai do papel.
Mas, uma boa decisão de projeto começa muito antes disso. Começa quando entendemos, com clareza, aquilo que o espaço precisará fazer.
Leia também: Arquitetura Hospitalar Veterinária.
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